Hoje vou apresentar mais um desses caras formidáveis que conheço. 

É o meu amigo Rafael Medeiros.

Ele se denomina um cara que tem como profissão ser mochileiro e que como hobby trabalha com TI.

E nessas mochiladas que ele faz pelo mundo, sua arte fotográfica vai sendo registrada de clic em clic trazendo para nós um olhar que não teríamos se fôssemos nós os espectadores dessa experiência.

Suas fotos fazem girar a cabeça, mas não menos que suas crônicas publicadas no Medium.

Eu vou compartilhar com você aqui uma dessas que me fizeram pensar muito e convido você para conhecer os outros textos do Rafael, bem como seu excelente trabalho com as fotografias no Instagram. Ah, eu acho que já disse que o Rafa é meu amigo né?!

https://medium.com/@mederafael

https://www.instagram.com/mederafael/

Adoção da vida

Por Rafael Medeiros

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Terceira noite que passo no mesmo lugar, adoeci e estou estagnado com meus movimentos resumidos à uma distância de 600m do local que estou hospedado.

Acabou que o seguro enviou uma médica, cubana e que prontamente fez o atendimento no quarto. Seu diagnóstico foi “altitude” e alguma coisa podre no estômago, para as dores de cabeça paracetamol, soro e levei uma injeção no bumbum. Assim que fechou a porta do quarto eu apaguei, por completo.

Durante o atendimento conversamos sobre cuba, e como era interessante a sua vida aqui, apesar do sentimento de saudades que sentia dos pais. Está aqui há 2 anos com o marido e sua filha.

Despertei com fome, e hoje são eleições para presidente — não tem nada aberto, somente as tais “burguesas de pollo”, resolvi ir assim mesmo procurar outro tipo de comida, de preferencia decente.

Enquanto fazia minha busca acabei por cruzar com um casal que percorria de forma inversa a mesma calle, e há um minúsculo cachorrinho que só percebi quando largou o casal e passou a me seguir, abanando seu pequenino rabinho.

Quando entro em desespero e me questiono — O que poderia fazer por ele? Nem comida para mim mesmo tenho conseguido, imagina para um cachorro, apressei o passo e ele para de caminhar, acabamos afastados por uma certa distância. Não resisto e olho pra ele, faço então um olhar de veem, vamos dar jeito nessa situação, e sem fazer a menor ideia do que se dará seguimos juntos e atravessamos o semáforo como dois velhos conhecidos.

Encontro uma cafeteria, e resolvo entrar para comprar alguma coisa, penso que leite com pão poderá ajudar aquela criatura. Estou tão ansioso que perco a paciência com o mané, o tal estava namorando o menu e fazendo questão de demorar, passo a frente assim mesmo e peço o leite com urgência, o mané mantêm a pirraça. Sou obrigado a aguardar o atendente que não teve escolhas, enquanto isso o pequeno chora e arranha a porta.

Passo a mão pela cabeça, não pelo mané, mas pelo cachorrinho que está lá fora que continua no seu sentimento de abandono — O que vou fazer?

Olho para os lados, vejo então duas mulheres que possuem um cachorro, e nem pensei em nada, já abordei elas — perguntei se podiam me ajudar, queria encontrar um lar para ele, ou um telefone em que eu poderia conseguir algum tipo de ajuda. Elas não entendem bem, ou se fazem de não entendidas, explico que sou do Brasil, e que o máximo que posso fazer pelo pequeno é alimentá-lo agora!

Ele é muito miúdo, que dó! Bom, volto e vejo que o cara (Mané) já tinha saído e liberado o atendente, peço o leite e lembro que tenho um pão dentro da mochila, não tinha conseguido comê-lo pela manhã. O cara tinha ido tirar o leite da vaca.

Um casal por volta dos 50 anos, que estava também dentro da cafeteria olhava atentamente para o pequenino lá fora. Saio e começo alimentá-lo com pão que fatiei em minúsculos pedaços, o casal sai para acompanhar a história. Conto tudo, desde o meu desespero até meus medos, eles se abrem e me contam que tinham visto tudo, a senhora senta na porta e abraça o pequenino, e assim volto para pegar o leite, tinha pedido um pequeno, e me trazem um copo gigante que me custou 2 dólares e 50, ok é só dinheiro — foda-se.

Demos o leite, a mulher do cachorro e sua amiga vierem falar que daria diarreia, bebe pouquinho, eu digo ufffaaa. Acaba por apagar nos braços da senhora. Com a barriga cheia acabou seu problema, dormiu em instante. Ela me fala que vai adotar, não acredito no que ouço, a mulher e sua amiga também não acreditam na grande sorte deste animal, largado na rua sozinho por alguma pessoa, que por seus motivos não foram capazes de cuidar deste animal.

Eeu? Olhos cheio de lágrimas de felicidade e estava sem nenhuma esperança e agora ela, sim — é uma cadelinha e vai ter um lar, insisto em ajudar com a alimentação, a senhora fala que já tem uma gatinha e que está tudo bem, que eu não preciso me preocupar mais.

A poucas horas eu tinha pensado em cuidar apenas de mim, tinha dito esta frase de forma egotista e Deus me dá essa rasteira de lição de vida! O que posso dizer depois disto tudo?! Estou em outro país, doente e sem condições físicas descente, e simplesmente me acontece isso! Minha pequena atitude resolveu a vida desta cadelinha, agora ela vai ser amada, alimentada e feliz.

Penso no casal que teve coragem de fazer nada e quantos mais devem ter feito o mesmo, se temos tempo apenas para nós, será que seremos mesmo um bom ser humano?

Não fique aí quietinho, se quiser dar um pitaco, esse espaço aqui é seu!

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