É… 2019 mal começou e pelo menos duas coisas eu percebi de diferente esse ano.

A primeira delas é que foi-se o tempo em que falávamos que o Brasil começava a trabalhar depois do Carnaval. Você já deve ter ouvido inúmeras vezes essa afirmativa não é? Só que quanta coisa já aconteceu esse ano provando que o brasileiro está sem tempo para ficar em berço esplêndido e todo mundo começou a ralação com o pé embaixo no acelerador.

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A segunda coisa que percebi foi a convicção que é um ano que começou com muitas tragédias. Normalmente chuvas são os principais geradores de tragédias em todo início de ano no Brasil, mas infelizmente junto delas tivemos episódios que fazem sangrar nossos corações, quer pela interrupção abrupta de vidas pelas quais são caras a todos nós, mas principalmente por perceber que no contexto central de todas essas tragédias um elemento comum foi o macabro protagonista de tais ocorrências. Vou falar qual é esse elemento daqui a pouco.

Rezo aqui para não termos mais tragédias, pois essas foram mais do que suficientes para nos colocar em uma humilde posição de reconhecer que algo estamos fazendo de muito errado e antes que a coisa possa piorar, só lamentar as mortes prematuras, evitáveis, não é suficiente.

Se você não estava em Marte, sem comunicação nenhuma com a Terra, cronologicamente foram esses eventos trágicos e que repercutiram muito que aconteceram:

a) Terra: em 25 de Janeiro, na cidade de Brumadinho, a barragem do Córrego do Feijão entrou em colapso deslizando milhões de metros cúbicos de lama e até o presente momento temos a confirmação de 165 mortes e 147 desaparecidos. Esse deslizamento em menor grau de devastação ecológica que a ocorrida em Mariana três anos antes, não é menos devastadora de vidas humanas, pois no episódio de Mariana foram 19 mortes. O que se tem de informação até o momento é o fato de que a barragem havia dado sinais dois dias antes, mas nada foi efetivamente feito para garantir a segurança das pessoas que lá trabalhavam, funcionários da Vale ou não;

b) Água: em 6 de Fevereiro, no Rio de Janeiro, 6 pessoas morreram devido a deslizamentos de terra das encostas de morros cariocas. Além do deslizamento de terra e de alagamentos, pedras muito grandes que se desprendem dessas encostas também ameaçam a vida de outros moradores desses locais. Confesso que me deu um baita susto, pois tais mortes estão ocorrendo frequentemente e todos os anos, sendo que as ações das autoridades responsáveis pouco ou nada mudam o status dessa situação;

c) Fogo: em 8 de Fevereiro, no Rio de Janeiro também, 10 adolescentes entre 14 e 16 anos, jovens atletas das categorias de base com sonhos de um dia se tornarem profissionais e assim poderem mudar as próprias vidas e de seus familiares foram brutalmente interrompidos por um incêndio causado por ar condicionados instalados de forma precária;

d) Ar: em 11 de Fevereiro, na cidade de São Paulo, ainda consternados por tantas mortes, um acidente aéreo envolvendo um helicóptero que tentou um pouso forçado na Rodoviáia Anhanguera e um caminhão, levou a vida do jornalista Ricardo Boechat e do piloto Ronaldo Quattrucci.

Tirando qualquer superstição de lado, processos kármicos ou questões sobrenaturais, sob o olhar de solução de problemas, o que podemos perceber é que há uma causa raiz comum em praticamente todas essas tragédias.

Já perceberam que se tornou um lugar comum em todas as tragédias, no primeiro levantamento de informações e documentos relativos ao episódio se descobre: que não havia autorização, que não havia liberação por autoridades competentes, que não havia regularização de uma situação pontual, que houve uma completa omissão apesar dos comunicados, relatórios, informativos?

E não é o Estado o principal culpado, é bem verdade que ter tantas regulações e não ter nenhuma capacidade de fiscalizar ajudam, mas o problema comum nessas tragédias não está no campo ideológico, sobre ter mais ou menos Estado, ter mais ou menos fiscalização, ter mais ou menos controles externos. O buraco é mais embaixo.

A cultura do jeitinho (o do mal), do fazer o mínimo que é suficiente, da busca pelas vantagens e privilégios pessoais em primeiro lugar, pondo essas coisas à frente inclusive da segurança de outras pessoas, o de dizer “dá nada não”…. vai gerando um relaxamento, uma preguiça mórbida nos responsáveis, que acreditam que um número qualquer em uma planilha que vise demonstrar os riscos é apenas um número em uma planilha, e “papel aceita tudo não é mesmo”. Não, papel não aceita tudo, por trás do papel, há um motivo, há um estudo, há uma experiência acumulada que vem sendo solenemente ignorada no nosso país.

E aí com a porta arrombada, pois não usávamos cadeado, é que então se leva a sério o risco, se leva a sério que mortes por omissão não são menos dolosas sob o ponto de vista moral (pois infelizmente, sob o ponto de vista da Justiça, o feedback ainda está muito lento)… e levando a sério, passam a cumprir as normas, tocam-se as sirenes, proíbe-se a condição de alojamento precário, justifica-se a condição de calamidade para que o dinheiro público seja mais facilmente liberado pelos cofres que guardam o produto dos pagadores de impostos. E aí? Descobre-se que boa parte desses recursos não chegaram aos destinatários originais deles, os assolados em Mariana ainda tentam resolver na justiça, os desabrigados cariocas, ainda estão desabrigados, e os helicópteros continuam circulando por aí… até a próxima tragédia acontecer e nos estarrecer novamente.

Por mais compliance, gestão de riscos, monitoramento e investimento em segurança é muito importante que dirigentes, decisores, responsáveis por definir como o dinheiro do orçamento vai ser gasto, tem que entender que custa muito mais caro ficar exposto a riscos desnecessários. Que instalar de forma correta o Ar Condicionado de um alojamento é muito mais barato que pagar indenizações a família de jovens que tinham um futuro, que não criar uma solução definitiva para retirar das áreas de risco de deslizamento as famílias e criar as condições para que elas não voltem, pode ser caro no primeiro ano, mas evitará novas mortes nos anos seguintes.

O problema não está na técnica, não está na tecnologia, não está nas leis, não está na fiscalização, não está no tamanho do Estado. O problema meu amigo, está nos homens, que deixando de cumprir suas responsabilidades por preguiça, ganância, negligência, desconhecimento, incapacidade, incompetência, fazem do nosso mundo um lugar ainda mais perigoso do que já é.

Uma vez vi um texto (que não lembro mais o nome do autor ou onde li) que dizia que um pai estava lendo o seu jornal enquanto o seu filho brincava de forma um pouco barulhenta. Para ter um pouco de sossego ele pegou um quebra-cabeças com o mapa mundi e deu ao seu filho para que ele o montasse. Um mapa mundi para um criança montar levaria um bom tempo, e assim o pai poderia ler o seu jornal calmamente. Minutos depois o filho dele o interrompe dizendo que tinha terminado. Mas como!? Então a criança, de forma humilde, mostrou ao pai que do outro lado do mapa mundi, tinha a figura de um homem e ela usou essa figura para conseguir “consertar” o mundo.

Um abraço seguramente focado,

Fernando Sobrinho

One thought on “Até Quando?”

  1. Estou com você na indignação as negligências cometidas nas catástrofes citadas.
    Descordo que seja uma questão menos ideológica e mais moral. Primeiro porque este é um pensamento ideológico pois é impossível ser neutro.
    Fica parecendo que a Elite tem um boa consciência enquanto as outras classes são corruptas. Eles dariam sempre um jeitinho e não fazem o trabalho direito. É fácil se dizer moralmente correto quando se tem acesso a altos cargos de trabalho e capital econômico e social. Se o “jeitinho mal” for entendido como um problema de toda a população brasileira criminaliza-se as classes baixas pois estas é que são exploradas pela Elite econômica. Se a classe média adotar um comportamento virtuoso pararia de consumir para se distinguir socialmente . A elite iria socializar os meios de produção e os pobres não precisariam do “jeitinho brasileiro “ para se virar. Se todos os homens forem corretos teremos um mundo melhor sim, mas eu combinaria primeiro com a Elite econômica que geralmente tem poder sobre o Estado e o Mercado. Concordo totalmente que o brasileiro preocupa-se mais em fazer o suficiente do que ter excelência.Achei o texto bem escrito e agradável de ler. Também torço para um Brasil mais produtivo!

Não fique aí quietinho, se quiser dar um pitaco, esse espaço aqui é seu!

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